quinta-feira, fevereiro 06, 2020

O Diálogo Inter-religioso: Necessidades e Princípios


“Muitos seres humanos começaram a reconhecer na religião, um poderoso meio para alcançar a paz e a reconciliação”.
Coord. por: M. Yiossuf Adamgy
Prezados Irmãos,
Saúdo-vos com a saudação do Islão, "Assalam alaikum", (que a Paz esteja convosco), que representa o sincero esforço dos crentes por estender o amor e a tolerância entre as pessoas, seja qual for o seu idioma, crença ou sociedade. O diálogo apenas pode acontecer em termos de igualdade. Infelizmente, a História tem sido testemunha de muitos atos de violência concretizados em nome da religião. Todavia, muitos seres humanos começaram a reconhecer outro papel à religião, como um poderoso meio para conseguir a paz e a reconciliação.
Consequentemente, o número de estudiosos no que respeita ao “diálogo inter-religioso” cresce de forma prometedora. O diálogo inter-religioso tem sido um tema deveras controverso e muitas têm sido as discussões a esse respeito, relativamente à sua necessidade, à sua justificação e às suas conquistas. Estas questões revelaram que as pessoas não estão conscientes do verdadeiro significado do diálogo inter-religioso. Perelman e Olbrechts-Tyteca (1969) explicaram o diálogo da seguinte forma: «… não é suposto ser um debate… mas sim uma pergunta através da qual os interlocutores procuram, sinceramente e sem preconceitos, a melhor solução para um problema controverso». Relativamente a esta descrição, Gülen (2000) descreve o diálogo inter-religioso como: «… procurar para dar-se conta da unicidade da religião, da unidade básica e da universalidade da fé. “A religião abarca todas as raças e credos sob a fraternidade, e exalta o amor, o respeito, a tolerância, o perdão, a misericórdia, os direitos humanos, a paz, a fraternidade e a liberdade através dos seus Profetas».
Estas descrições levam-nos a outra pergunta: “Quão útil e benéfico pode ser o diálogo inter-religioso para a solução de problemas?”. O diálogo inter-religioso não pretende alterar as idéias das pessoas no que respeita à sua própria religião ou crenças; procura, sim, encontrar um terreno comum entre as religiões, centrar-se nas comunidades e, através da ênfase na harmonia e na paz, pretende encontrar soluções para muitos dos nossos problemas comuns.
De fato, uma das razões para o diálogo inter-religioso é «proporcionar um ambiente de liberdade». Outro importante autor do diálogo inter-religioso foi Seyyed Hossein Nasr, professor de Estudos Islâmicos na Universidade George Washington. Quando visitou o Vaticano em 1977, como membro de uma delegação, Nasr destacou cinco áreas em que Cristianismo e Islão podem trabalhar juntos para a construção de um mundo melhor. Essas cinco áreas são «os perigos da tecnocracia moderna e a destruição ecológica, as crises energéticas, os problemas da juventude e a decadência da moral e da fé» (Kot, 2009). Além disso, o Reverendo Allman afirma: «A capacidade de discutirmos as nossas diferenças religiosas e culturais é algo mais do que uma simples “atividade extracurricular”, é uma capacidade vital para os participantes em Democracia, em especial numa sociedade democrática como a nossa, repleta de gente com diferenças profundas e complexas» (The Network, 1999). Estas declarações mostram a importância do diálogo inter-religioso para o melhoramento da Humanidade e da boa vontade das sociedades. A este respeito, devo dizer que no passado, na era da divergência, podíamos viver isolados uns dos outros, podíamo-nos ignorar mutuamente. Agora, na era da convergência, estamos obrigados a viver num mesmo mundo.
Vivemos num mundo cada vez mais globalizado. Atualmente, as causas mais comuns fomentadoras do conflito entre religiões ou entre pessoas de diferentes religiões têm a ver com a falta de entendimento entre idéias ou crenças. Os encontros de diálogo inter-religioso, os debates e conferências, ajudam a superar estes equívocos e a falta de familiaridade desaparece. O resultado destes diálogos pode ser de extrema importância. Como afirma Smock, ««... “Quando duas ou mais religiões se unem para explorar ou promover a possibilidade da paz, os efeitos podem ser particularmente poderosos». Os benefícios do diálogo inter-religioso são evidentes, ainda que não seja um trabalho fácil. Uma vez mais, Smock (2002) evidencia que «o diálogo inter-religioso é uma tarefa difícil e, frequentemente, dolorosa». Existem alguns requisitos prévios para que o diálogo inter-religioso tenha êxito. Swidler (2003) classifica estes requisitos da seguinte forma:
1) Estar aberto a aprender com os outros.
 2) O conhecimento da própria tradição.
 3) Um companheiro de diálogo com idêntica disposição e conhecedor da outra tradição».
A importância de cada pré-requisito será pormenorizadamente explicado a seguir: Ingredientes para que um encontro de diálogo inter-religioso seja bem-sucedido:
1) O componente mais importante do diálogo inter-religioso consiste em recordar o verdadeiro sentido do diálogo. Trata-se de uma discussão de duplo sentido que requer respeito e compreensão. Este componente pode parecer extremamente fácil de compreender, mas é muito fácil de esquecer. Swidler (2007) afirma que: «Caso se mantenha este objetivo básico e se agir com imaginação e criatividade, o diálogo prosseguirá frutífero e assistir-se-á a uma transformação crescente da vida de cada participante e da das suas comunidades». Assim sendo, para a obtenção dos melhores resultados em cada diálogo inter-religioso, há que não esquecer o verdadeiro sentido do diálogo. Há que explicar o diálogo como ««… uma questão em que os interlocutores procuram sinceramente e sem preconceitos a melhor solução para um problema controverso».
2) Nestas reuniões, os intervenientes devem estar conscientes do fato de que todos os membros são de diferentes origens religiosas e culturais, pelo que o diálogo inter-religioso se baseia na compreensão e no respeito mútuos. Num diálogo inter-religioso nenhum dos participantes deve procurar ofender o sistema de crenças dos restantes membros.
3) Smock (2002) escreve que, para determinar o êxito de um diálogo, há que indicar de forma clara o objetivo da reunião e escolher os participantes. O propósito da reunião deve ser decidido pelos participantes antes das reuniões, ficando claro e especificado.
4) Ao descrever como iniciar o diálogo, Bohme (1991) afirmam que a interrupção é uma parte importante do diálogo. Ouvir os restantes participantes é uma fase obrigatória do processo. Durante estas reuniões, todos os participantes devem estar livres de preconceitos e abertos à compreensão e ao reconhecimento de novas perspectivas. Os encontros de diálogo inter-religioso são uma excelente forma de aprender acerca das diferentes religiões e dos diferentes pensamentos.
 5) A não esquecer que, nestes encontros, reunimo- -nos como pessoas e não como sistemas de crenças, e que os mesmos nos proporcionam uma oportunidade incrível para aprender, debater e entender outras religiões do mundo deveria conduzir a um conhecimento e a uma melhor compreensão recíproca e ao intercâmbio dos valores mútuos como um enriquecimento da própria fé e da fé dos outros» (Cosijns e Braybrooke, 2008). Contudo, um problema ou erro praticado nestes encontros não deve ser usado para generalizar quanto a um sistema concreto de crenças. Kurucan (2006) afirma que, quando falamos de diálogo inter-religioso, «referimo-nos ao diálogo de pessoas de diferentes religiões». Assim sendo, as pessoas presentes nestas reuniões não devem ser vistas como categorias ou como únicos representantes das suas religiões, mas sim como pessoas individuais, com as suas virtudes e defeitos, como todos nós.
 6) O diálogo inter-religioso tem como objetivo encontrar soluções para os problemas do mundo e das restantes pessoas, centrando-se nas similitudes entre os sistemas de crenças e não nas diferenças e em questões polêmica.
 7) Smock (2002) afirma que um único encontro inter-religioso pode não ser muito útil, pelo que devem existir algumas sessões de acompanhamento para a compreensão dos benefícios que podem advir de tais encontros.
8) Além disso, é também uma boa oportunidade para aprender sobre as práticas religiosas dos demais participantes, verificar as diferenças entre as respectivas compreensões e ter imenso cuidado com essas diferenças durante o processo de diálogo. Crowley (2006) afirma que a determinação da estase – das partes em que as idéias dos intervenientes diferem – é uma parte importante da discussão pública. No diálogo inter-religioso é importante estar consciente da estase, de modo a não ofender os restantes participantes.
9) Não existe exclusividade e nem sincretismo. Abu-Nimer (2007) afirma que, nos diálogos inter-religiosos, religião alguma deve ser excluída. Fazê-lo representaria uma desvantagem enorme para o sucesso do diálogo inter-religioso. Destaca também que, a tentativa de sincronizar todas as religiões numa única, pode ser tão perigoso como excludente. Conforme dito anteriormente, é de extrema importância aceitar todas as religiões e as pessoas religiosas dentro do seu próprio sistema de crenças.
10) O diálogo apenas pode acontecer em termos de igualdade. Se um grupo religioso vê outro como inferior ou superior, o diálogo não poderá ocorrer, por não permitir o intercâmbio e o entendimento entre grupos, que é o objetivo principal de qualquer diálogo inter-religioso. O diálogo inter-religioso é um assunto importante no mundo globalizado. Pessoas de diferentes religiões convivem neste mundo interligado, enfrentando atualmente inúmeros problemas. Este grupo inter-religioso é crucial para um mundo em que «todos os dias, quase 16.000 crianças morrem de causas relacionadas com a fome. Isso “significa uma criança a cada cinco segundos» (www.bread.org). O papel do diálogo inter-religioso para a solução destes problemas não pode ser subestimado. Smock (2002) refere que «embora a religião possa e deva contribuir para a resolução de conflitos violentos, pode ser um poderoso fator na luta pela paz e pela reconciliação.
Fonte:Reflexões Islâmicas - nº. 387 - www.islao.pt /www.alfurqan.pt — alfurqan2011@gmail.com — tlm. 96 545 96 46

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